A MORTE DA ROUPA

Jackson Araujo
5 min readFeb 22, 2022

QUANDO A MODA ARRANHOU A ARTE E TOCOU NA DOR DAS RUAS

A MORTE DA ROUPA, em 1997. Ao centro, o hoje maquiador Robert Estevão; à dir., a modelo e DJ Marina Dias

A MORTE DA ROUPA é a performance que realizei ao lado de talentos emergentes da moda em 1997 e que inspirou a criação da frase “A MODA NÃO É MAIS SOBRE ROUPAS, MAS SOBRE PESSOAS”, durante a Trama Afetiva de 2019.

Quando comecei a refletir sobre o conteúdo que apresentaríamos no palco do Centro Cultural São Paulo durante quatro dias do mês de agosto de 2019, para a terceira edição do festival multicultural TRAMA AFETIVA, percebi que intuitivamente eu estava recorrendo ao pensamento que pautou essa performance.

Em 1997, fui convidado a apresentar uma performance de moda no evento “Babel”, no espaço onde seria construído o que é hoje o Sesc Pinheiros, em São Paulo. Assim, co-criei com jovens designers emergentes da cena underground da noite paulistana a ação batizada oportunamente de A MORTE DA ROUPA.

A paixão de Thais Losso pelo universo pop e kitsch oitentista das telenovelas

Já ali naquele tempo me incomodava o fato de que a roupa começava a migrar para um segundo plano, abrindo espaço para o protagonismo de uma nova geração de criativos que, cada um a seu modo, buscava traduzir em construções estéticas valores culturais baseados em comportamento, entretenimento, gênero e matéria-prima. Tudo ainda muito superficial se tomarmos como parâmetro a moda contemporânea que nos interessa e motiva no presente.

Objetos da arte têxtil de Renato Dib, expoente da Faculdade Santa Marcelina para além das roupas

Participaram dessa ação performativa os designers: Thais Losso, Caio Gobbi e Vinicius Campion (que estava iniciando sua marca A Mulher do Padre ao lado da sócia Paula Ferrali), mais o artista têxtil Renato Dib e a marca SLAM, do designer Giuliano Menegazzo, que tinha as roupas favoritas da geração clubber paulistana. No cenário, fotos de Claudia Guimarães, que retratou sua mãe, o stylist Marcos Marla e a modelo Marina Dias. No styling da performance estavam Cesar Fassina e Daniel Ueda. Esse era o bonde de influenciadores de moda daquela época, pra usar um termo de hoje.

A cabeça de repolho inspirada na imagem da contracapa do álbum de estreia d'Os Mutantes

Trazendo um olhar de hoje sobre o que realizamos ali, consigo conectar essa minha imagem com cabeça de repolho com a foto da contracapa do álbum de estreia d'Os Mutantes (1969). Rita Lee, Arnaldo Batista e Sergio Dias tinham 19 e 21 anos nesta época, idades que regulavam com a daquela geração que estava ali conosco no palco, quebrando preconceitos, sem medo.

Contracapa do álbum de estreia d'Os Mutantes que inspirou a imagem da performance

Quando pensei em criar uma imagem para a persona que desfilaria celebrando a morte da roupa, me veio a ideia de atuar no território de um conteúdo provocativo consoante com um dos momentos icônicos desse álbum, a música “Caminhante Noturno”, título que de alguma forma se conectava com a cultura clubber vivida intensamente por todos nós que emprestávamos nossa energia criativa, dando corpo e vestimentas à performance.

Ao centro, Adriana Recchi, musa do Hell's Club, ao lado de Gustavo Menegazzo, irmão do designer Giuliano Menegazzo, criador da marca SLAM, a favorita da cena clubber de SP nos anos 1990

Essa track dos Mutantes tem o que é considerado um dos primeiros samplers da história da música brasileira, o som das vaias recebidas por Caetano Veloso no Festival Internacional da Canção com a plateia gritando “Bicha! Bicha!”, logo após o discurso feito pelo cantor ao ser impedido de interpretar a canção “É Proibido Proibir” por inteiro.

Intimamente, traduzimos essa forma de afrontar a plateia por meio dos meus gestuais desmunhecados, peruquinha, unhas e cílios postiços, que iam sendo arrancados a cada entrada na passarela, separando os blocos dos designers convidados a mostrar suas criações.

A imagem de astronauta solitário que arranca as unhas no território da performance

Era uma imagem também solitária de um astronauta feio, angustiado num meio tão controlado pela beleza. Havia ainda na ocupação daquele espaço o desafio de confrontar uma plateia muito mais interessada em assistir aos grande nomes convidados para o evento — Kazuo Ohno, Nina Moraes, Nazareth Pacheco, Gerald Thomas, Orlan, Cabelo e Zé Celso — do que a um cearense recém-chegado à São Paulo, que imprimia de forma livre suas opiniões críticas sobre moda na Folha de S.Paulo e que foi convidado pela curadoria do evento para representar a mídia moda naquele território, de forma inédita.

O humor irônico de Vinicius Campion, criador da A Mulher do Padre, hit do Mercado Mundo Mix em 1995

O desconforto que sentíamos dos olhares que nos ameaçavam nas ruas por conta de nossas roupas, cabelos e atitudes foi a força que retornou para a plateia, mantendo-se atenta e silenciosa enquanto desfilávamos nossas angústias até que, ao final, uma mulher em situação vulnerável e de rua, com o rosto e o corpo todo machucado (por violência física ou atropelamento, nunca soubemos), ultrapassou o bloco de pessoas que assistia de pé ao nosso derradeiro ato, aplaudindo e gritando algo como: "É isso mesmo!". Talvez ela tenha se conectado com a imagem das mulheres machucadas desenhadas por Caio Gobbi ou simplesmente pela estranheza que arranhava o ar daquela noite gelada de sexta-feira.

Marina Dias, Adriana Recchi e Isadora Krieger, três jovens potências femininas na apresentação de Caio Gobbi

Aquele foi o reconhecimento e a melhor recepção que poderíamos ganhar pelo ato performático que se pretendia fúnebre: a voz humana cantando uma dor das ruas. Um réquiem ao som do grito dos oprimidos.

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